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Fase 5 de 7, Capítulo 426 min
Poder, conflito e o que já existe
O poder mais eficaz é o que não precisa aparecer: ele define o que sequer chega a ser discutido.
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Steven Lukes propôs que o poder opera em três dimensões, cada uma mais difícil de enxergar que a anterior.
Primeira dimensão o poder visível de vencer a decisão. Duas partes com interesses opostos disputam, e uma prevalece. É o poder da votação, do cargo, do contrato.
Segunda dimensão o poder de controlar a agenda. Mais eficiente que ganhar o debate é impedir que ele exista — deixando o assunto fora da pauta, adiando a reunião, exigindo um trâmite que ninguém consegue cumprir.
Terceira dimensão o poder de moldar as preferências. O mais profundo de todos. Consiste em fazer com que as pessoas aceitem como natural, inevitável ou merecida uma situação que as prejudica. Quando ninguém reclama porque ninguém imagina que poderia ser diferente, não é ausência de conflito: é conflito vencido antes de começar.
Reconhecer a terceira dimensão muda o trabalho comunitário. Boa parte da tarefa não é resolver problemas que a comunidade aponta, mas ajudar a formular como problema aquilo que vinha sendo vivido como destino. É a mesma operação que Freire chamava de passagem da consciência ingênua à consciência crítica — e ela não se faz por convencimento, e sim por confronto com a própria experiência.
Ao mesmo tempo, é preciso resistir à tentação de descrever o território apenas por aquilo que lhe falta. John McKnight e John Kretzmann propuseram inverter o instrumento: em vez do mapa de carências, um inventário de ativos. Dons e habilidades de indivíduos; associações, mesmo informais; instituições presentes; espaços físicos subutilizados; e a economia local que já circula ali. O resultado costuma surpreender inclusive os moradores.
Elinor Ostrom acrescentou a prova empírica de que comunidades conseguem governar bens comuns sem privatizá-los nem entregá-los ao Estado, desde que criem regras próprias, monitoramento mútuo e sanções graduais. Foi por esse trabalho que se tornou a primeira mulher a receber o Nobel de Economia, em 2009. A horta, a quadra, o poço e o mutirão de limpeza entram nessa categoria — e o Módulo 4 volta a esse ponto ao tratar de governança.
Por fim, conflito não é sinal de fracasso do processo. É sinal de que algo real está em jogo. Diagnóstico que não encontra nenhum conflito provavelmente não chegou perto de nada que importe — ou só ouviu um lado.
Quadro de autoras e autores
11 pensadores atravessam os capítulos deste módulo. Use como consulta rápida durante a leitura.
Milton Santos 1926–2001 Território usado
A Natureza do Espaço (1996)
Como funciona
O espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. O que interessa não é o território em si, mas o território usado — o chão mais a vida que nele se faz.
Por que importa aqui
Impede a leitura do bairro como cenário vazio à espera de projeto. Onde há uso, já há organização, história e disputa.
Henri Lefebvre 1901–1991 Espaço concebido, percebido e vivido
O Direito à Cidade (1968)
Como funciona
O espaço é produzido socialmente em três dimensões simultâneas: o plano dos técnicos, a prática cotidiana e a experiência simbólica de quem habita.
Por que importa aqui
Explica por que um projeto tecnicamente impecável pode ser rejeitado: ele resolveu o espaço concebido e ignorou o vivido.
Jane Jacobs 1916–2006 Olhos da rua
Morte e Vida de Grandes Cidades (1961)
Como funciona
A segurança e a vitalidade urbanas vêm da presença contínua de pessoas com motivos legítimos para estar ali, sustentada por diversidade de usos e quarteirões curtos.
Por que importa aqui
Ensina a observar antes de intervir. Muita solução de segurança destrói exatamente a convivência que produzia segurança.
Paulo Freire 1921–1997 Investigação temática
Pedagogia do Oprimido (1968)
Como funciona
O trabalho começa levantando, com o povo, os temas geradores que organizam sua visão de mundo — e não com um conteúdo trazido de fora.
Por que importa aqui
É o método do diagnóstico comunitário: ler o território com a comunidade, nunca sobre ela.
Orlando Fals Borda 1925–2008 Investigação-ação participativa
Conocimiento y poder popular (1985)
Como funciona
Pesquisa e ação caminham juntas; o conhecimento produzido pertence à comunidade e volta para ela em forma utilizável.
Por que importa aqui
Define a ética do diagnóstico: quem é pesquisado não pode ser apenas fonte de dado para relatório alheio.
Sherry Arnstein 1930–1997 Escada da participação
A Ladder of Citizen Participation (1969)
Como funciona
A participação só existe quando há redistribuição de poder; oito degraus separam a manipulação do controle cidadão.
Por que importa aqui
Dá uma régua honesta para avaliar conselhos, audiências e consultas — inclusive as promovidas pelo próprio coletivo.
Mark Granovetter 1943– A força dos laços fracos
The Strength of Weak Ties (1973)
Como funciona
Informação nova circula melhor por conhecidos distantes do que por amigos próximos, porque estes já sabem o que nós sabemos.
Por que importa aqui
Explica por que ampliar a rede vale mais do que aprofundá-la quando o coletivo precisa de oportunidade, recurso ou aliado.
Robert Putnam 1941– Capital social
Comunidade e Democracia (1993)
Como funciona
Confiança, normas de reciprocidade e redes de engajamento cívico tornam as instituições mais eficazes; distingue laços de ligação e de ponte.
Por que importa aqui
Mostra que investir em convivência não é perda de tempo: é infraestrutura invisível de qualquer política pública.
John McKnight 1931– Desenvolvimento baseado em ativos
Building Communities from the Inside Out (1993), com Kretzmann
Como funciona
Substitui o mapa de carências por um inventário de dons, associações, instituições, espaços e economia local já existentes.
Por que importa aqui
Vira a mesa do diagnóstico: a comunidade deixa de ser lista de problemas e vira estoque de capacidades subaproveitadas.
Steven Lukes 1941– As três dimensões do poder
O poder: uma visão radical (1974)
Como funciona
Poder é vencer a decisão, mas também controlar o que entra em pauta e, no limite, moldar o que as pessoas julgam possível desejar.
Por que importa aqui
Ensina a procurar o poder onde ele não aparece: no assunto que ninguém levanta e na resignação tratada como bom senso.
Elinor Ostrom 1933–2012 Recursos de uso comum
Governing the Commons (1990)
Como funciona
Comunidades conseguem gerir bens compartilhados de forma sustentável quando criam regras próprias, monitoramento e sanções graduais.
Por que importa aqui
Desmente a ideia de que só o Estado ou o mercado dão conta do que é de todos. A praça, a horta e o poço podem ser autogeridos.
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Verifique sua leitura
O que caracteriza a terceira dimensão do poder, segundo Lukes?
A seguir: Caderno de atividades