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Fase 3 de 7, Capítulo 228 min
Ler o território com a comunidade
Diagnóstico participativo não é ouvir a comunidade sobre um projeto pronto. É deixar que a leitura dela mude o projeto.
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Paulo Freire formulou o princípio que sustenta todo diagnóstico honesto: a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Antes de qualquer conteúdo trazido de fora, existe um saber já constituído sobre o próprio lugar — feito de experiência, e não de bibliografia. Ignorá-lo não é apenas indelicado; é metodologicamente errado, porque descarta a fonte mais confiável disponível.
Daí a investigação temática. Em vez de chegar com um programa, o educador ou organizador levanta com as pessoas os temas geradores — as situações-limite que organizam a visão de mundo daquele grupo. O trabalho não acontece em aula, mas em círculo de cultura: todos falam, ninguém expõe conteúdo pronto e o resultado não é sabido de antemão por quem convocou.
Orlando Fals Borda, sociólogo colombiano, radicalizou a proposta na investigação-ação participativa. A pesquisa e a ação caminham juntas, e o conhecimento produzido pertence a quem foi pesquisado — precisa voltar para a comunidade em formato utilizável, não virar artigo que ela nunca vai ler. Fals Borda chamava de devolução sistemática essa obrigação, e a tratava como questão ética, não como cortesia.
No Brasil, essa tradição chegou pela pesquisa participante, organizada por Carlos Rodrigues Brandão e praticada em movimentos de educação popular desde os anos 1970. O deslocamento é sempre o mesmo: de pesquisar sobre para pesquisar com — e a diferença aparece menos no questionário do que em quem define as perguntas.
Existe, porém, um risco constante de participação decorativa. Reuniões convocadas para validar o que já foi decidido, conselhos sem poder deliberativo, consultas cujo resultado nunca é publicado. Sherry Arnstein deu nome a essa encenação em 1969, ao propor uma escada de oito degraus que mede quanto poder real está sendo transferido — e não quanta gente compareceu.
A régua de Arnstein serve também, e principalmente, para dentro de casa. Vale aplicá-la ao próprio coletivo: em que degrau está a assembleia que nós mesmos convocamos? Quem redige a pauta? Quem tem voto? Um grupo pode denunciar consulta simbólica na prefeitura e reproduzi-la na própria reunião de quinta.
A escada da participação
Sherry Arnstein propôs, em 1969, uma escada de oito degraus para medir quanto poder real a população tem em um processo. A legenda mostra em que faixa cada degrau cai.
A escada é lida de baixo para cima: o primeiro degrau está na base.
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Manipulação A comunidade é chamada para endossar o que já foi decidido.Não é participação
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Terapia Trata-se a insatisfação como problema de atitude, não de estrutura.Não é participação
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Informação Avisa-se o que vai acontecer, sem canal de retorno.Concessão simbólica
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Consulta Pergunta-se a opinião, sem compromisso de usá-la.Concessão simbólica
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Pacificação Alguns moradores entram no conselho, mas sem votos que decidam.Concessão simbólica
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Parceria O poder de decidir é negociado e repartido entre as partes.Poder cidadão
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Poder delegado A comunidade tem maioria nas decisões sobre o que lhe diz respeito.Poder cidadão
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Controle cidadão A própria comunidade gere, define e presta contas do que é seu.Poder cidadão
- Não é participação
- Concessão simbólica
- Poder cidadão
Verifique sua leitura
Na escada de Arnstein, o que separa a “concessão simbólica” do “poder cidadão”?
A seguir: Quem já age aqui