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Fase 3 de 7, Capítulo 226 min
Dinheiro sem perder a alma
A pergunta não é como conseguir dinheiro. É como conseguir dinheiro sem que ele decida, aos poucos, o que o grupo faz.
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Sustentabilidade financeira raramente vem de uma fonte generosa. Vem de combinação. Recursos próprios gerados pelo coletivo, recursos públicos e recursos privados têm ritmos, exigências e riscos diferentes, e cada um cobre a fragilidade dos outros.
Os recursos próprios são os menos valorizados e os mais estratégicos. Contribuição de associados, rifa, bazar, festa, prestação de serviço, aluguel de espaço ocioso. Dão pouco dinheiro e muita autonomia: é a única receita que ninguém corta por decisão externa. Coletivos que nunca desenvolveram essa capacidade descobrem tarde demais que dependem inteiramente de terceiros para existir.
No campo público, o Brasil tem desde 2014 um marco específico: a Lei 13.019, conhecida como MROSC, que organiza as parcerias entre administração pública e organizações da sociedade civil. Ela prevê chamamento público como regra, define instrumentos como o termo de fomento, o termo de colaboração e o acordo de cooperação, e estabelece regras de prestação de contas. Antes dela, a Lei 9.790/1999 já havia criado a qualificação de OSCIP. Conhecer esse vocabulário não é preciosismo jurídico: é o que permite ler um edital sem depender de intermediário.
Existem ainda fundos específicos que muitos coletivos desconhecem, como os fundos municipais dos direitos da criança e do adolescente e os fundos do idoso, alimentados por destinação de imposto de renda e geridos por conselhos com participação da sociedade civil. São recursos locais, decididos localmente — e frequentemente subutilizados por falta de projetos apresentados.
No campo privado, editais de institutos e fundações, patrocínio empresarial, leis de incentivo e doação de pessoas físicas. O risco a vigiar aqui tem nome: desvio de missão. Ele nunca acontece de uma vez. Acontece por pequenas adaptações sucessivas, cada uma razoável isoladamente, até que o coletivo esteja executando a agenda de outra pessoa com o próprio nome na fachada.
A defesa contra isso é ter a missão escrita antes de precisar dela. Drucker insistia nesse ponto: a missão de uma organização social não é texto decorativo de estatuto, é critério operacional para recusar oportunidades. Um coletivo que nunca recusou nada provavelmente não tem missão — tem disponibilidade.
Sobre prestação de contas, três hábitos simples resolvem a maior parte dos problemas: guardar todo comprovante desde o primeiro dia, separar as contas do coletivo das contas pessoais de quem o dirige, e publicar internamente um resumo financeiro em toda assembleia, mesmo quando ninguém pediu. Transparência praticada em tempo de calmaria é o que protege o grupo quando surge a primeira suspeita.
Três fontes, nenhuma sozinha
Sustentabilidade não é achar um financiador. É não depender de um só. Toque em cada fonte.
Recursos próprios
O que o coletivo gera por si
Contribuição de associados, rifa, bazar, festa, venda de produto ou serviço, aluguel de espaço. É a fonte menos glamourosa, a mais trabalhosa e a única que ninguém pode cortar. Sustenta a autonomia política do grupo.
Recursos públicos
O que vem do Estado
Editais, chamamentos públicos, emendas, fundos setoriais como os fundos da criança e do idoso. No Brasil, as parcerias com a administração pública seguem a Lei 13.019/2014. Exige formalização e prestação de contas rigorosa — e paga tarde.
Recursos privados
O que vem de empresas e fundações
Editais de institutos, patrocínio, doação de pessoas físicas, leis de incentivo. Costuma ser mais rápido e mais exigente quanto a resultados visíveis. O risco a vigiar é o desvio de missão: aos poucos, o projeto vira o que o financiador quer comprar.
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Por que os recursos próprios são estratégicos, mesmo sendo poucos?
A seguir: Governança que não depende de heróis